O sol ainda estava abaixo da linha do horizonte quando acordei. A velha casa parecia silenciosa como nunca, e lembrei-me que a partir de agora eu estava só. O ataque recente dos malditos lobos, na noite anterior, havia levado a última pessoa com quem eu me importava, a única coisa que me impediu, durante toda a minha vida, de caçá-los. E desta vez seria algo pessoal. Após o torpor do choque, após ouvir a notícia de que minha esposa fora brutalmente assassinada por aquelas vis criaturas, meu primeiro impulso foi correr floresta adentro e acabar com cada um deles, mas meus amigos — se é que posso chamá-los assim — conseguiram me segurar. É que ninguém pode vencer lobos durante a noite; especialmente aqueles que assolavam Malbenis.
Se não fossem pelos lobos da Lupa Arbaro, minha cidade, que se chamava Sovaĝa, seria apenas mais uma cidade pacata, esquecida do resto do mundo. Eu havia crescido aqui e lembro bem de me assustar durante a noite com os uivos que vez ou outra pareciam tão próximos. Apesar disso, durante toda a minha infância eu não havia visto um lobo sequer. Às vezes um ou dois caçadores relatavam tê-los visto, mas poucos acreditavam em tais histórias. Sabíamos que aqueles lobos só vagavam durante a noite, e ninguém em sã consciência se aventuraria além da cidade sob a fraca luz de tochas, lua e estrelas. Vivíamos acostumados ao medo constante, e todos nós temíamos o escuro.
Quando eu tinha por volta de meus quinze anos, o governo de Riĉeco veio com a ideia de criar uma ferrovia que ligasse nossas cidades. Naquela época, as armas produzidas em Fortikaĵo demoravam algumas semanas para chegar aqui depois de solicitadas, e tínhamos que nos virar geralmente com arcos ou facas. Além do mais, arcabuzes eram muito barulhentos e apesar de termos um estoque para eventualidades, nós as encarávamos como armas de guerra, não de caça. Mas o plano foi abandonado assim que os primeiros construtores foram despedaçados pelos lobos em plena luz do dia. Foi quando nossa cidade começou a ficar famosa. Passaram a chamá-la Malbenis, “a amaldiçoada”, e recompensas apareceram por parte de vários investidores para qualquer um que acabasse com aquele obstáculo ao “progresso”. Não demorou para que Malbenis se tornasse uma nova febre para quem queria ganhar dinheiro fácil. Pobres coitados apareciam toda semana, com todo tipo de armas e prometendo o tão desejado extermínio dos lobos, mas uma vez que alguém desaparecia entre as árvores, jamais era visto novamente.
Poucos anos depois daquele incidente, quando já não havia mais muitos homens corajosos ou tolos o suficiente para se arriscar na empreitada, ele apareceu. Um homem em seus quarenta anos, vestido com chapeu de cowboy e carregando uma besta, arma que nunca tínhamos visto por aqui. Disseram-me que era um herói famoso por aí — chamava-se Felico — e que daria um fim nos lobos de uma vez por todas. Eu acreditei que seria o fim de um longo tempo de opressão e medo, mas uma vez que saiu em sua caçada, Felico nunca mais voltou — apesar de rumores mais tarde dizerem que ele tinha atravessado a floresta vivo. Aquele fora um acontecimento sem importância para todos na cidade, mas de repente passei a sentir alguma coisa diferente em mim, um sentimento aventuresco que nunca havia sentido antes. Pela primeira vez, meu medo de colocar os pés na floresta havia sumido, e me vi gradualmente vagando cada vez mais fundo junto dos outros caçadores e coletores da cidade.
A medida que o tempo passou, eu acabei me tornando um dos melhores caçadores das redondezas, sempre trabalhando durante o dia e voltando para casa algumas horas antes de o sol se por. A velha torre tinha um papel essencial nessa parte, sempre avisando com seus sinos aos caçadores quando era hora de voltar. Nessa época eu conheci e apaixonei por Marana, a filha do prefeito, e ela foi a primeira pessoa a se preocupar comigo naquele dia que nunca esquecerei, porque de tão distraído, acabei perdendo a hora e ficando na floresta até mais tarde. Um arrepio me percorreu o corpo quando me dei conta de que era tarde demais. Se tentasse voltar, seria facilmente apanhado assim que as feras começassem sua caçada noturna, e ficar ali seria apenas facilitar as coisas para elas. Por isso minha melhor alternativa seria armar uma emboscada com o máximo de armadilhas que eu conseguisse montar. Depois de deixar tudo pronto, escolhi uma árvore alta para esperar, e logo ouvi os uivos infernais que ecoavam ao sul.
Não dava pra diferenciar se o tremor em minhas mãos eram devido ao frio que fazia ou ao medo que eu sentia, e depois de alguns minutos esperando, ouvi os galhos estalando no chão. Um granido feroz me revelou dois olhos amarelados no meio da escuridão, brilhando como duas velas, e eu rezei para que minha árvore fosse alta o suficiente. Mas não era. A besta deu um salto e agarrou-se ao mesmo galho que eu estava, que não suportou o peso e quebrou. Ambos caímos no chão, mas a fera ficou mais desorientada que eu, que consegui me afastar e correr em direção a uma das armadilhas antes que ela viesse em minha direção e fosse capturada. Eu estava caído no chão e assustado enquanto ela se debatia e uivava para se livrar da rede que a havia apanhado, mas não havia como se soltar. O barulho certamente atrairia outros lobos, e eu não tinha outra escolha senão matá-lo ali. Eu não poderia imaginar que aquela atitude poderia me causar tanto mau, pois aquele foi o dia em que o sossego de nossa cidade acabou.
Se não fossem pelos lobos da Lupa Arbaro, minha cidade, que se chamava Sovaĝa, seria apenas mais uma cidade pacata, esquecida do resto do mundo. Eu havia crescido aqui e lembro bem de me assustar durante a noite com os uivos que vez ou outra pareciam tão próximos. Apesar disso, durante toda a minha infância eu não havia visto um lobo sequer. Às vezes um ou dois caçadores relatavam tê-los visto, mas poucos acreditavam em tais histórias. Sabíamos que aqueles lobos só vagavam durante a noite, e ninguém em sã consciência se aventuraria além da cidade sob a fraca luz de tochas, lua e estrelas. Vivíamos acostumados ao medo constante, e todos nós temíamos o escuro.
Quando eu tinha por volta de meus quinze anos, o governo de Riĉeco veio com a ideia de criar uma ferrovia que ligasse nossas cidades. Naquela época, as armas produzidas em Fortikaĵo demoravam algumas semanas para chegar aqui depois de solicitadas, e tínhamos que nos virar geralmente com arcos ou facas. Além do mais, arcabuzes eram muito barulhentos e apesar de termos um estoque para eventualidades, nós as encarávamos como armas de guerra, não de caça. Mas o plano foi abandonado assim que os primeiros construtores foram despedaçados pelos lobos em plena luz do dia. Foi quando nossa cidade começou a ficar famosa. Passaram a chamá-la Malbenis, “a amaldiçoada”, e recompensas apareceram por parte de vários investidores para qualquer um que acabasse com aquele obstáculo ao “progresso”. Não demorou para que Malbenis se tornasse uma nova febre para quem queria ganhar dinheiro fácil. Pobres coitados apareciam toda semana, com todo tipo de armas e prometendo o tão desejado extermínio dos lobos, mas uma vez que alguém desaparecia entre as árvores, jamais era visto novamente.
Poucos anos depois daquele incidente, quando já não havia mais muitos homens corajosos ou tolos o suficiente para se arriscar na empreitada, ele apareceu. Um homem em seus quarenta anos, vestido com chapeu de cowboy e carregando uma besta, arma que nunca tínhamos visto por aqui. Disseram-me que era um herói famoso por aí — chamava-se Felico — e que daria um fim nos lobos de uma vez por todas. Eu acreditei que seria o fim de um longo tempo de opressão e medo, mas uma vez que saiu em sua caçada, Felico nunca mais voltou — apesar de rumores mais tarde dizerem que ele tinha atravessado a floresta vivo. Aquele fora um acontecimento sem importância para todos na cidade, mas de repente passei a sentir alguma coisa diferente em mim, um sentimento aventuresco que nunca havia sentido antes. Pela primeira vez, meu medo de colocar os pés na floresta havia sumido, e me vi gradualmente vagando cada vez mais fundo junto dos outros caçadores e coletores da cidade.
A medida que o tempo passou, eu acabei me tornando um dos melhores caçadores das redondezas, sempre trabalhando durante o dia e voltando para casa algumas horas antes de o sol se por. A velha torre tinha um papel essencial nessa parte, sempre avisando com seus sinos aos caçadores quando era hora de voltar. Nessa época eu conheci e apaixonei por Marana, a filha do prefeito, e ela foi a primeira pessoa a se preocupar comigo naquele dia que nunca esquecerei, porque de tão distraído, acabei perdendo a hora e ficando na floresta até mais tarde. Um arrepio me percorreu o corpo quando me dei conta de que era tarde demais. Se tentasse voltar, seria facilmente apanhado assim que as feras começassem sua caçada noturna, e ficar ali seria apenas facilitar as coisas para elas. Por isso minha melhor alternativa seria armar uma emboscada com o máximo de armadilhas que eu conseguisse montar. Depois de deixar tudo pronto, escolhi uma árvore alta para esperar, e logo ouvi os uivos infernais que ecoavam ao sul.
Não dava pra diferenciar se o tremor em minhas mãos eram devido ao frio que fazia ou ao medo que eu sentia, e depois de alguns minutos esperando, ouvi os galhos estalando no chão. Um granido feroz me revelou dois olhos amarelados no meio da escuridão, brilhando como duas velas, e eu rezei para que minha árvore fosse alta o suficiente. Mas não era. A besta deu um salto e agarrou-se ao mesmo galho que eu estava, que não suportou o peso e quebrou. Ambos caímos no chão, mas a fera ficou mais desorientada que eu, que consegui me afastar e correr em direção a uma das armadilhas antes que ela viesse em minha direção e fosse capturada. Eu estava caído no chão e assustado enquanto ela se debatia e uivava para se livrar da rede que a havia apanhado, mas não havia como se soltar. O barulho certamente atrairia outros lobos, e eu não tinha outra escolha senão matá-lo ali. Eu não poderia imaginar que aquela atitude poderia me causar tanto mau, pois aquele foi o dia em que o sossego de nossa cidade acabou.
Terminou o texto deixando o "gostinho de quero mais".
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