Conta-se que durante todo o primeiro milênio, os povos que hoje denominam-se camparianos viviam nas
planícies norte-ocidentais, e suas fronteiras estendiam-se do Brua Maro até as Pilgrimantaj Montoj.
Eram tempos inesquecíveis e de muita fartura. As chuvas regulares
resultavam em campos férteis e o gado crescia muito, oferecendo uma boa
vida não só aos cidadãos, mas também aos escravos. O sistema político
avançado permitiu que os povos que habitavam aquele lugar criassem um
reino unificado sobre o rei Audarium, na cidade de Kampara, nome que acabou ficando conhecido em todo o continente por seus avanços nas artes e na ciência.
Foi no início da segunda era que os morvoj, os povos do leste que havia sido manipulado por Afeu, planejaram uma invasão ao ocidente e começaram assim a marchar em direção ao oeste, aniquilando todos os peregrinos que viviam nas encostas das montanhas. Alcançaram as primeiras cidades ocidentais algumas décadas após sua migração. Quando os reinos ocidentais conseguiram se mobilizar para uma defesa unificada, a invasão já estava sólida o bastante para desafiá-los. A guerra durou aproximadamente 300 anos e devastou todo o território, deixando apenas um saldo de incalculáveis mortes. Apesar de todo o conhecimento e aparente superioridade de Kampara, os morvoj eram mais habilidosos na guerra e conseguiram ao final extinguir a linhagem dos reis sucessores de Audarium.
Apartir daquele momento, como que por uma intervenção milagrosa dos deuses superiores, os morvoj voltaram para suas terras e não mais foram vistos do lado ocidental do Fiarum, deixando a dúvida e preocupação no coração de todos os habitantes de Kampara. Desesperados e aterrorizados, os cidadãos abandonaram seus campos férteis, amaldiçoando aquela terra e se escondendo numa grande península, que passou a se chamar Okcidenta Duoninsulo. Sem seu rei, os camparianos se separaram e criaram Estados independentes, unidos apenas pelo medo de que a guerra não houvesse ainda acabado. Usando seus últimos recursos, criaram em pouco mais de uma década uma muralha fortificada que os separava do resto do continente e manteram-se em alerta durante décadas e mais décadas, mas a ameaça nunca veio.
A medida que as gerações foram passando, o medo e a preocupação deram lugar ao desejo de conhecer o resto do mundo, e assim, após uma era de exílio e medo, os camparianos finalmente reabriram os grandes Portões de Arĝento e se ligaram oficialmente ao resto do mundo, na expectativa de encontrar um novo lar cheio de surpresas e inovações. Ao contrário do que esperavam, o mundo que encontraram além de suas fronteiras era muito diferente de seu reinado, um grande continente hostil e sem leis, dominado pela violência, medo e ignorância: uma herança do que os morvoj haviam deixado para trás, uma tipo de maldição que impediu qualquer resquício de civilização de superar os instintos mais primitivos da humanidade. Os camparianos perceberam que o reinado de Afeu havia se expandido até o limite de suas fronteiras e agora eles estavam sós. Se o deus inimigo desejasse, bastaria mover suas tropas e aniquilar aquele povo fraco diante de todo um mundo sedento por sangue e guerras, nutrido de ódio pelos únicos que se esconderam e fugiram quando poderiam ter ficado e lutado.
Uma nova guerra parecia iminente quando o Cometa de Balaro cruzou o céu durante uma semana, anunciando o início de uma nova Era, um símbolo tradicionalmente interpretado pelos camparianos como sorte nas batalhas. Eles entenderam que Balaro estava do seu lado, e usaram essa esperança para impor seu poder aos demais povos selvagens. Os governantes dos Estados camparianos entenderam que quanto mais povos estivessem sob seu domínio, mais forte seus Estados se tornariam e mais preparados estariam contra um futuro ataque oriental, e lançaram-se ao mar, tentando conquistar cada vez mais e mais povos, enriquecendo às custas do sofrimento e da pilhagem dos selvagens. Começava uma nova supremacia dos camparianos sobre o ocidente, e mais uma vez eles sentiam que o oriente estava silencioso de mais enquanto novos impérios que se formavam do outro lado do Fiarum. A dúvida se espalhou e todos imaginavam se o silêncio significava medo ou era uma tomada de fôlego antes do início de um novo terror. Boatos diziam que os morvoj haviam criado uma nova arma, capaz de voar como uma águia e derramar grandes bombas flamejantes sobre vastas extensões de terra. As tensões agora preocupavam todos os Estados, pois o homem facilmente esquece o passado e comete os mesmos erros de novo e de novo.
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